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extremamente alto & incrivelmente perto.

Extremamente alto e incrivelmente perto.

Entrei em contato com esse livro graças a recomendação de uma amiga e assim que fui atrás de mais informações, senti que a segunda obra de Jonathan Safren Foer (autor de Tudo se Ilumina) tinha tudo para me agradar.

Oskar Schell é um garoto de 9 anos que perdeu o pai nos atentados de 11 de setembro. Mas ele é muito mais do que isso. É inventor, colecionador de borboletas que tiveram morte natural e fã dos Beatles. É inteligente, talvez um prodígio. Não gosto de prodígios, na verdade, e prefiro não classificá-lo assim.

Jonathan Foer desenvolveu a obra em dois tempos paralelamente; a história de Oskar, narrada pelo próprio garoto, que se passa no começo da década passada, e a de seu avô, contada através de cartas que que ele escreveu ao seu filho (pai de Oskar). Ambas tem em comum a marca de uma tragédia, já que se o protagonista teve de encarar a perda de seu pai, que estava no World Trade Center no fatídico dia do ataque, seu avô é um sobrevivente aos ataques a Dresden durante a Segunda Grande Guerra, que lhe deixou cicatrizes (do pior tipo, as que não são físicas) para o resto de sua vida.

Ambas histórias são boas e funcionam muito bem, se complemetando, mas o que realmente salta aos olhos são as aventuras de Oskar por toda Nova York. O menino tinha uma relação muito próxima com seu pai, com quem passava muitas e muitas horas, seja procurando erros no New York Times ou simplesmente passeando no Central Park. Após a morte do pai, Oskar encontra um vaso no quarto de seus pais, na parte em que o ente falecido guardava seus pertences. Dentro dele, o garoto acha um envelope com a palavra Black escrita e uma chave. Pensando ser mais um jogo entre os tantos que o pai fazia com ele, Oskar passa a realizar uma jornada pelos cinco distritos da Big Apple para tentar descobrir, afinal, o que a chave abre. É durante essa aventura que não tive nenhuma vontade de parar de ler, apenas de continuar pelas próximas páginas – e também de conhecer Nova York, brilhantemente ambientada pelo autor.

A capa do livro de Jonathan Safran Foer é toda bacanosa 🙂

Extremamente Alto traz alguns experimentos gráficos em suas páginas. São imagens muito bonitas, que não estão ali apenas para ilustrar a situação, mas sim para acrescentar algo a experiência da leitura. O design do livro é um tanto interessante e ajuda a ambientar o leitor na jornada dos Schell, atingindo o ápice, na minha opinião, quando o acontecimento que dá nome ao livro é desenvolvido no apartamento do Sr. Black, vizinho de 103 anos que inicia uma relação de amizade com Oskar.

Raramente tive uma experiência tão imersiva com algum personagem. Ao final do livro, me senti como se conhecesse Oskar profundamente; como se o menino fosse um grande amigo meu. Amizade essa facilitada pela empatia que desenvolvi com o garoto ao longo das mais de 300 páginas, que trazem não apenas características da criança, mas de todo o mundo que está inserido. Após alguns poucos capítulos, você já está familiarizado com suas invenções a todo instante, sua paixão pelo francês, suas visitas ao apartamento da avó e suas expressões como “com as botas pesadas”. A personalidade de Oskar é assimilada inteiramente pelo leitor, que entra na atmosfera criada por Foer – e esse é o grande trunfo deste viciante livro.

Quer saber? Resumindo tudo que eu escrevi acima: faça essa favor a você mesmo e leia.

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Bilionários (não) por acaso

Mark Zuckerberg é o cara.

Além de eleito homem do ano pela revista Times, o geek fundador do Facebook tem sua história retratada no livro Bilionários por Acaso, que por consequência deu origem ao aclamado filme A Rede Social, dirigido por ninguém menos que o brilhante David Fincher, que inclusive aparece como forte aposta para o Oscar. Zuckerberg está em todo lugar. E você provavelmente está no site dele.

Como bom usuário de redes sociais em geral, a história me chamou atenção e resolvi ler o livro de Ben Mezrich. É importante ressaltar que para a elaboração do livro o autor ouviu ao (ex) amigo de Mark, o brasileiro Eduardo Saverin, cofundador do Facebook e expressa, portanto, somente um ponto de vista.

Somos apresentados então a história do crescimento meteórico do site e a trama principal, em que Eduardo vai sendo deixado para trás por Mark pouco-a-pouco na empresa, até uma armadilha judicial que praticamente o exclui do Facebook. Acima de tudo, tanto o livro quanto o filme tratam da irônica situação de Zuckerberg – fundador de um site com 500 milhões de usuários e separado daquele que um dia foi seu melhor (e único) amigo.

Acho fundamental apontar a escolha totalmente infeliz para o título do livro. Desde o primeiro capítulo da obra está bem claro que, no início dos anos 2000, quando a Internet já caminhava a passos largos e começava a deixar muita gente rica do dia para a noite, milhares de pessoas estavam em busca da sua ideia, aquele investimento que viraria o seu bilhão. Mark e Eduardo eram algumas delas. Há sorte em todo esse processo? É evidente. Mas há principalmente, ousadia, tino para os negócios, criatividade, e claro, o fora de uma garota, que levou Mark a criar o Facemash, o protótipo da rede social mais usada no mundo hoje. Definir isso como acaso é diminuir em muito a complexidade da história.

Mas os problemas do livro não se resumem ao título. Ben Mezrich muitas vezes tenta escrever de uma forma que beira o poético, buscando usar palavras mais refinadas para criar metáforas que definitivamente não seriam necessárias e impedem que o decorrer das páginas tenha uma melhor fluência. Além disso, o autor obviamente teve de inventar os diálogos a partir dos depoimentos de Eduardo, o que não faz com muita competência. Muitas vezes eles não soam nada naturais e até há um certo exagero nos palavrões, em frases em que Ben parece quer dar um tom jovem aos personagens mas acaba gerando uma sensação de irrealismo tremenda. No entanto, o desenrrolar dos acontecimentos é tão interessante que o livro acaba por ser uma leitura rápida, apesar desses pontos não-favoráveis.

No filme de David Fincher, entretanto, não há problema com o ritmo ou com a cadência. O roteiro não-linear e os tempos paralelos prendem a atenção do espectador, que passa a visualizar a história na sua cabeça. O único problema, se é que assim posso chamá-lo, é que talvez para quem não tenha lido o livro possam haver algum estranhamento com algumas citações feitas ao longo da projeção, como os Clubes Finais – mais uma das coisas que fazem parte de um mundo a parte chamado Harvard – bem como alguns outros detalhes que podem ser melhores explicados no livro, por motivos óbvios. É como se as duas obras fossem complementares.

Celebridade que só é possível em nosso tempo (impensável há 20 anos), Zuckerberg é representado nas telas por Jesse Eisenberg de forma bastante segura, que te faz parecer conhecer o verdadeiro bilionário mais jovem do mundo.

Mark é aquele cara que você consegue facilmente perceber o perfil e comportamento. É um nerd que tem a facilidade de relacionamento com o computador inversamente proporcional a que tem com pessoas. Fechado, recluso e mesmo monossilábico, é assim que ele é apresentado para o público. Aquele cara estranho que ninguém conversa. Aquele gênio da computação que recusou uma proposta de sete dígitos da Microsoft ainda no ensino médio. E aquele cara que não faz absolutamente nenhum sucesso com as mulheres. Irônico e despreocupado com formalidades (está sempre vestindo moletom e chinelos), Zuckerberg é um grande personagem a ser explorado e tem uma história muito interessante que envolve amizade, relacionamentos, negócios e um dos sites mais populares do planeta.

O filme cumpre bem seu papel e não deixa a desejar. No entanto, se você é fã de computadores e internet, a leitura de Bilionários por Acaso certamente será uma boa experiência, ao mostrar ainda mais aprofundadamente como um nerd excluído transformou o modo como as pessoas se comunicam.

Inclusive no Culturópole. Afinal, se você gostou desse post, pode compartilhá-lo com seus amigos clicando nesse ícone do Facebook logo aqui em baixo. 🙂


Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil

O primeiro post sobre literatura do Culturópole será justamente sobre o último livro que pude ler, o Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil.

“Estes são meus princípios. Se você não gostar deles, tenho outros”

(Groucho Marx)

 

Devo abrir esse post dizendo que Leandro Narloch descobriu minha tática. Sempre fui bem em História, minha matéria favorita. Portanto, nunca segui o chavão que abre o livro (um texto pronto sobre História para ser usado em provas, bastando completar alguns buracos de acordo com os assuntos abordados no teste), mas recomendava algo semelhante aos meus amigos que não nutriam esse mesmo interesse pela disciplina.

Na verdade, assim como esse, há alguns outros chavões bastante claros, como a eterna luta de classes bem antes de Karl Marx pensar em existir. Mas enfim, se um dia postar sobre colas, me alongarei nesse assunto. O que interessa agora é o modo como este livro desafia o modo padronizado, que parece muitas vezes impensado dos livros históricos: simplesmente se segue um senso comum há muito estabelecido para se recontar os acontecimentos do passado.

É aí que entra Leandro Narloch. Seguindo os passos do também jornalista Laurentino Gomes (autor de 1808 e 1822), Leandro desmonta a maneira tradicional como a História é ensinada. Nos faz ter medo de quantas vezes um mito pode ter alcançado o status de verdade incontestável ao longo dos tempos por falta de uma pesquisa mais apurada ou interesses pessoais, políticos e comerciais de quem pôde alterá-la.

Polêmico, o autor destrói vários mitos da história nacional, alguns deles que podem até mesmo fazer os mais patriotas contestarem a veracidade do Guia Politicamente Incorreto, como a afirmação de que não foi Santos Dumont que inventou o avião. Você pode até torcer para que o que lê não seja verdade (como, confesso, me peguei fazendo algumas vezes), mas Norloch conta com uma farta pesquisa e extensa bibliografia além de documentações para justificar seus argumentos.

Como explicitado no título, o politicamente correto passa longe da obra – é aqui que se encontra o destaque do trabalho de Narloch – afinal, é trazida ao leitor uma nova leitura da História do Brasil, cujo mérito é justamente não ser simplificada, sem as tradicionais definições rasas e primordialmente maníqueistas, como o clássico “europeu branco malvado vs. índio coitado”. Não, o jornalista analisa os mais variados grupos étnicos ou políticos assim como qualquer indíviduo: formado por qualidades e defeitos. Os índios gostavam de guerra e as tribos viviam em conflitos, além de promoverem grandes queimadas em nosso território. A baboseira da vida harmoniosa entre nativos e natureza (que sobrevive até hoje, basta assistir “Avatar”) é derrubada no Guia.

Leandro acaba focando suas atenções sobre os grupos considerados injustiçados nesses mais de 500 anos de Brasil (sem deixar de esconder um certo viés de direita) o que acaba se tornando justamente o diferencial do livro. Ok, os europeus tinham escravos, e já sabemos disso. O Guia Politicamente Incorreto não tenta negar esse fato, apenas mostrar também que muitos dos próprios negros, quando recebiam a alforria, passavam a participar desse mercado, adquirindo seus próprios súditos. Que os comunistas poderiam ser tão cruéis quanto os militares, na época da ditadura. Que a Inglaterra tentou evitar a Guerra do Paraguai, justamente o contrário do que é ensinado até hoje em todas as escolas.

De fácil leitura, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil cumpre bem o que se propõe a fazer, derrubar mitos que se tornaram verdades e estão presentes massivamente nos materiais acadêmicos.

É um livro recomendado a todas as pessoas, mas obrigatório para quem gosta de História.

Apenas uma observação a mais: não deixe de conferir a bibliografia. Há muita coisa boa lá. Eu mesmo achei que o livro Maldita Guerra, sobre a Guerra do Paraguai parece bastante interessante e pretendo comprá-lo em breve.


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