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A Vingança da Classe Média

Nos últimos dias, o Brasil acompanhou de perto a cobertura da guerra ao tráfico no Rio de Janeiro. Tanques de guerra, fuzis, homens fardados e mortes. As cenas que os canais de TV transmitiam eram fortes e atingiam um grau inédito para nossa população.

A GloboNews chegou a dedicar sua programação quase íntegra para a cobertura, como em um reality show. Diversas hashtags sobre a guerra dominaram o Trending Topics do Twitter. Nas ruas, o assunto era só esse. Os brasileiros e em especial os cariocas, apesar do medo, finalmente sentiram que algo, qualquer coisa que seja estava sendo feita. Depois de anos de omissão do Estado, uma ação tão grande mexeu com os ânimos da população, que apoiava fortemente a retomada de territórios. E é isso que é o mais interessante de se observar.

A classe média (que é a classe social que tenho mais propriedade para escrever, mas provavelmente a classe A também nutre o mesmo sentimento) encarou tudo isso como um revide a bandidagem. Nem era necessário morar no Rio de Janeiro para acompanhar tudo nos mínimos detalhes, comemorando cada centímetro da favela retomada, cada traficante preso e porque não, morto. Bastava uma rápida olhada em comentários na internet e a coisa mais fácil de se achar era a famosa frase “bandido bom é bandido morto”. Não estou aqui para criticar isso, apesar de achar que sair por aí metendo bala não seja de fato a solução, mas essa reação é perfeitamente compreensível. Cada marginal preso é como uma vingança da classe média por aquele carro roubado, aquela vez que entraram em sua casa, o susto que você tomou quando abordado no meio da rua.

A repetição incessante de imagens na TV certamente ajudou em muito na aprovação da ação da polícia pela população e o que melhor representa isso certamente é a cena mais vezes mostrada – a fuga desesperada dos traficantes da Vila Cruzeiro para o Complexo do Alemão. É como uma transferência do medo. Se os bandidos te fazem viver com medo, sempre atento em cada sinal vermelho por trás do seu vidro insulfilm a caminho de seu apartamento totalmente vigiado por câmeras, nada mais normal que assistir um grupo deles correndo loucamente com o rabinho entre as pernas da favela – e o melhor, com medo – te faça se sentir bem.

Dessa vez, o pessoal dos Direitos Humanos deu lugar aos que querem Humanos Direitos.

Para terminar, como estudante de Comunicação, não posso deixar de observar mais uma vez o Twitter. Há alguns perfis muito interessantes envolvidos nesse episódio da história do Rio. Pela primeira vez, moradores das comunidades que estavam sendo invadidas podiam contar o que estavam vendo (@vozdacomunidade) , o Batalhão de Operações Especiais (BOPE)  tinha um perfil que aparentemente foi deletado, mas que causou um certo barulho ao reclamar da cobertura dos helicópteros da Globo e da Record, que poderiam auxiliar os bandidos no acompanhamento da tática policial e por fim, o @bocadesabao é um perfil (bem anterior a essa invasão nos morros, mas certamente trata de um tema interligado) criado por policiais para denunciar companheiros não tão honrosos que se envolvem com corrupção.

O Culturópole desviou um pouquinho de seu foco principal, mas é importante debater o que está acontecendo em nossa sociedade. Se você quiser comentar algo, sinta-se a vontade.

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