Arquivo do mês: dezembro 2010

Bilionários (não) por acaso

Mark Zuckerberg é o cara.

Além de eleito homem do ano pela revista Times, o geek fundador do Facebook tem sua história retratada no livro Bilionários por Acaso, que por consequência deu origem ao aclamado filme A Rede Social, dirigido por ninguém menos que o brilhante David Fincher, que inclusive aparece como forte aposta para o Oscar. Zuckerberg está em todo lugar. E você provavelmente está no site dele.

Como bom usuário de redes sociais em geral, a história me chamou atenção e resolvi ler o livro de Ben Mezrich. É importante ressaltar que para a elaboração do livro o autor ouviu ao (ex) amigo de Mark, o brasileiro Eduardo Saverin, cofundador do Facebook e expressa, portanto, somente um ponto de vista.

Somos apresentados então a história do crescimento meteórico do site e a trama principal, em que Eduardo vai sendo deixado para trás por Mark pouco-a-pouco na empresa, até uma armadilha judicial que praticamente o exclui do Facebook. Acima de tudo, tanto o livro quanto o filme tratam da irônica situação de Zuckerberg – fundador de um site com 500 milhões de usuários e separado daquele que um dia foi seu melhor (e único) amigo.

Acho fundamental apontar a escolha totalmente infeliz para o título do livro. Desde o primeiro capítulo da obra está bem claro que, no início dos anos 2000, quando a Internet já caminhava a passos largos e começava a deixar muita gente rica do dia para a noite, milhares de pessoas estavam em busca da sua ideia, aquele investimento que viraria o seu bilhão. Mark e Eduardo eram algumas delas. Há sorte em todo esse processo? É evidente. Mas há principalmente, ousadia, tino para os negócios, criatividade, e claro, o fora de uma garota, que levou Mark a criar o Facemash, o protótipo da rede social mais usada no mundo hoje. Definir isso como acaso é diminuir em muito a complexidade da história.

Mas os problemas do livro não se resumem ao título. Ben Mezrich muitas vezes tenta escrever de uma forma que beira o poético, buscando usar palavras mais refinadas para criar metáforas que definitivamente não seriam necessárias e impedem que o decorrer das páginas tenha uma melhor fluência. Além disso, o autor obviamente teve de inventar os diálogos a partir dos depoimentos de Eduardo, o que não faz com muita competência. Muitas vezes eles não soam nada naturais e até há um certo exagero nos palavrões, em frases em que Ben parece quer dar um tom jovem aos personagens mas acaba gerando uma sensação de irrealismo tremenda. No entanto, o desenrrolar dos acontecimentos é tão interessante que o livro acaba por ser uma leitura rápida, apesar desses pontos não-favoráveis.

No filme de David Fincher, entretanto, não há problema com o ritmo ou com a cadência. O roteiro não-linear e os tempos paralelos prendem a atenção do espectador, que passa a visualizar a história na sua cabeça. O único problema, se é que assim posso chamá-lo, é que talvez para quem não tenha lido o livro possam haver algum estranhamento com algumas citações feitas ao longo da projeção, como os Clubes Finais – mais uma das coisas que fazem parte de um mundo a parte chamado Harvard – bem como alguns outros detalhes que podem ser melhores explicados no livro, por motivos óbvios. É como se as duas obras fossem complementares.

Celebridade que só é possível em nosso tempo (impensável há 20 anos), Zuckerberg é representado nas telas por Jesse Eisenberg de forma bastante segura, que te faz parecer conhecer o verdadeiro bilionário mais jovem do mundo.

Mark é aquele cara que você consegue facilmente perceber o perfil e comportamento. É um nerd que tem a facilidade de relacionamento com o computador inversamente proporcional a que tem com pessoas. Fechado, recluso e mesmo monossilábico, é assim que ele é apresentado para o público. Aquele cara estranho que ninguém conversa. Aquele gênio da computação que recusou uma proposta de sete dígitos da Microsoft ainda no ensino médio. E aquele cara que não faz absolutamente nenhum sucesso com as mulheres. Irônico e despreocupado com formalidades (está sempre vestindo moletom e chinelos), Zuckerberg é um grande personagem a ser explorado e tem uma história muito interessante que envolve amizade, relacionamentos, negócios e um dos sites mais populares do planeta.

O filme cumpre bem seu papel e não deixa a desejar. No entanto, se você é fã de computadores e internet, a leitura de Bilionários por Acaso certamente será uma boa experiência, ao mostrar ainda mais aprofundadamente como um nerd excluído transformou o modo como as pessoas se comunicam.

Inclusive no Culturópole. Afinal, se você gostou desse post, pode compartilhá-lo com seus amigos clicando nesse ícone do Facebook logo aqui em baixo. 🙂


Por uma Vida Melhor (Away We Go)

Finalmente estou começando uma maratona de filmes que só é possível nas férias.

O primeiro DVD que aluguei foi Por Uma Vida Melhor (Away we Go, 2009), do diretor Sam Mendes, cujo trabalho mais conhecido é Beleza Americana.

Eu iria escrever um texto sobre essa comédia (a qual muitas vezes beira um humor negro, como nos filmes dos irmãos Coen) que aborda de forma muito particular a história de um casal que se depara com a falta de sentido da vida quando estão prestes a ter um filho.

O título que foi dado na tradução brasileira deixa a desejar, portanto, não se engane: Por Uma Vida Melhor não é uma comédia boba sobre um casal imaturo e perdido no meio de um turbilhão de acontecimentos. Ou talvez seja. Afinal, Hitchcock já disse que o importante não é a história e sim como ela é contada. E Sam Mendes acertou o modo de nos contar a história de seu último projeto.

Ao ler o texto de meu amigo Matheus, também blogueiro e também estudante de Cinema, no entanto, senti que a necessidade de escrever sobre o filme já não existia. Tudo foi dito em sua análise do filme, a qual recomendo para todos.


A boa e velha concorrência

As férias começaram, e enquanto preparo alguns posts sobre livros e filmes para os quais finalmente terei mais tempo para me dedicar, vou deixar um post de mais um vídeo publicitário bastante interessante.

Adoro propagandas que cutucam as concorrentes, o que sempre faz lembrar das clássicas da Pepsi contra a Coca-Cola.

Talvez às vezes falte coragem para esse tipo de iniciativa, que hoje em dia está escassa e com certeza faz falta, pois já gerou várias campanhas inesquecíveis.


O Sorriso Que Parou São Paulo

Mais um post sobre publicidade aqui no Culturópole. Abaixo, o mais recente vídeo da campanha “Inspiração Muda Tudo” da Brastemp, produzido pela premiadíssima agência DM9.

Lançado há exatamente um mês, já conta com mais de um milhão de acessos no Youtube (e a aprovação de quem assistiu, basta dar uma olhada nos comentários do próprio site) e  chegou a aparecer nos Trending Topics do Twitter. Portanto, claramente se trata de um viral, aquele tipo de vídeo que você repassa espontaneamente aos seus amigos e que é, para mim, o mais eficaz produto publicitário.

E o que explica esse sucesso?

O que mais chama atenção na propaganda é, sem dúvida, o rompimento da rotina. O momento é o maçante horário de rush pela manhã, quando pessoas sonolentas enfrentam o pesado trânsito da capital paulista se dirigindo ao trabalho. Não costuma exatamente ser o auge do seu dia, certo?

É então que o spot lançado em 11 estações de rádio aparece. Sugere uma interação entre as pessoas que ouvem a chamada – que sorriam umas as outras. A ideia possibilita uma bela captação de imagens, usando como cenário o deteriorado Minhocão, tão amado pela TV e pela publicidade.

O tom usado no vídeo dá uma grandeza a essa ideia aparentemente simples, o que é em muito ajudado pela impecável qualidade técnica do trabalho.

Por fim, é uma aula de Publicidade. Os eletrodomésticos da Brastemp não são mencionados em nenhum momento, mas a marca tem seu nome propagado amplamente, gerando uma identificação com o público que jamais existiria naquele esquema tradicional do “compre, tenha”.

Essa é a tendência em tempos de web 2.0. Mais de um milhão de pessoas assistiram ao vídeo sem que a Brastemp tenha gastado um centavo sequer em sua exibição, ao contrário dos meios tradicionais, como a televisão, em que investiria muito (observando que o vídeo tem mais de 1 minuto e meio, ao contrário dos 30 ou 45 segundos comuns na telinha) e dificilmente teria o mesmo retorno.

Quero aproveitar ainda para agradecer o número elevado de visitas que venho recebendo. Levando em consideração o tempo que o blog tem, as estatísticas têm me deixado bastante feliz com o resultado do Culturópole. Obrigado a todos!


A Vingança da Classe Média

Nos últimos dias, o Brasil acompanhou de perto a cobertura da guerra ao tráfico no Rio de Janeiro. Tanques de guerra, fuzis, homens fardados e mortes. As cenas que os canais de TV transmitiam eram fortes e atingiam um grau inédito para nossa população.

A GloboNews chegou a dedicar sua programação quase íntegra para a cobertura, como em um reality show. Diversas hashtags sobre a guerra dominaram o Trending Topics do Twitter. Nas ruas, o assunto era só esse. Os brasileiros e em especial os cariocas, apesar do medo, finalmente sentiram que algo, qualquer coisa que seja estava sendo feita. Depois de anos de omissão do Estado, uma ação tão grande mexeu com os ânimos da população, que apoiava fortemente a retomada de territórios. E é isso que é o mais interessante de se observar.

A classe média (que é a classe social que tenho mais propriedade para escrever, mas provavelmente a classe A também nutre o mesmo sentimento) encarou tudo isso como um revide a bandidagem. Nem era necessário morar no Rio de Janeiro para acompanhar tudo nos mínimos detalhes, comemorando cada centímetro da favela retomada, cada traficante preso e porque não, morto. Bastava uma rápida olhada em comentários na internet e a coisa mais fácil de se achar era a famosa frase “bandido bom é bandido morto”. Não estou aqui para criticar isso, apesar de achar que sair por aí metendo bala não seja de fato a solução, mas essa reação é perfeitamente compreensível. Cada marginal preso é como uma vingança da classe média por aquele carro roubado, aquela vez que entraram em sua casa, o susto que você tomou quando abordado no meio da rua.

A repetição incessante de imagens na TV certamente ajudou em muito na aprovação da ação da polícia pela população e o que melhor representa isso certamente é a cena mais vezes mostrada – a fuga desesperada dos traficantes da Vila Cruzeiro para o Complexo do Alemão. É como uma transferência do medo. Se os bandidos te fazem viver com medo, sempre atento em cada sinal vermelho por trás do seu vidro insulfilm a caminho de seu apartamento totalmente vigiado por câmeras, nada mais normal que assistir um grupo deles correndo loucamente com o rabinho entre as pernas da favela – e o melhor, com medo – te faça se sentir bem.

Dessa vez, o pessoal dos Direitos Humanos deu lugar aos que querem Humanos Direitos.

Para terminar, como estudante de Comunicação, não posso deixar de observar mais uma vez o Twitter. Há alguns perfis muito interessantes envolvidos nesse episódio da história do Rio. Pela primeira vez, moradores das comunidades que estavam sendo invadidas podiam contar o que estavam vendo (@vozdacomunidade) , o Batalhão de Operações Especiais (BOPE)  tinha um perfil que aparentemente foi deletado, mas que causou um certo barulho ao reclamar da cobertura dos helicópteros da Globo e da Record, que poderiam auxiliar os bandidos no acompanhamento da tática policial e por fim, o @bocadesabao é um perfil (bem anterior a essa invasão nos morros, mas certamente trata de um tema interligado) criado por policiais para denunciar companheiros não tão honrosos que se envolvem com corrupção.

O Culturópole desviou um pouquinho de seu foco principal, mas é importante debater o que está acontecendo em nossa sociedade. Se você quiser comentar algo, sinta-se a vontade.


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